Ser livre

Fala-se muito em liberdade. É um daqueles conceitos que brilham como estrelas no vocabulário humano: desejado, perseguido, idolatrado. Mas, afinal, o que é ser livre? E, mais profundamente, será que essa tal liberdade real existe — ou será apenas uma miragem na floresta das nossas vontades?

Desde cedo nos ensinam que liberdade é poder escolher, decidir por si mesmo, agir conforme o próprio querer. Mas esquecem de mencionar que o querer também tem dono. Queremos o que queremos, ou queremos o que nos ensinaram a querer?

Somos livres para sair por aí, mas temos horários, boletos, obrigações e, às vezes, até uma reputação a zelar. Somos livres para pensar, mas os pensamentos muitas vezes vêm moldados por ideologias, crenças, medos e lembranças. Somos livres para amar, mas o amor também traz laços — e que laços!

Talvez a liberdade total seja como um animal mitológico: belo, fascinante, mas inexistente. O que temos são parcelas, brechas, momentos de liberdade.

Liberdade é quando conseguimos ser quem somos — mesmo que por instantes, mesmo que dentro das nossas cercas. Liberdade é poder dizer “não” quando todos esperam o “sim”, ou poder calar quando todos gritam.

Curiosamente, algumas amarras também nos libertam. Um compromisso pode dar sentido. Uma responsabilidade pode dar direção. Um amor pode dar asas, mesmo quando prende. A verdadeira questão talvez não seja se somos livres, mas se sabemos o que fazer com as correntes que escolhemos carregar.

Liberdade real? Há quem diga que ela mora mesmo é numa consciência tranquila. Ou naquele instante em que a gente respira fundo, olha ao redor e percebe que, apesar das amarras, seguimos em frente — por vontade própria.

No brasão de Minas, está lá, estampada firme e solene, a frase “Libertas quae sera tamen” – Liberdade, ainda que tardia.

Sempre achei bonita essa frase, esse jeito mineiro, meio teimoso de afirmar um direito. Como quem chega atrasado na festa, mas ainda assim entra, ajeita o paletó e exige o pedaço do bolo.

Liberdade é daquelas palavras que todo mundo conhece, mas cada um define de um jeito. Para uns, é poder ir e vir. Para outros, é dizer o que pensa sem olhar pros lados. Já me senti livre ao, simplesmente, recusar um convite sem precisar inventar uma desculpa. Parece pouco, mas pra mim foi uma revolução.

A liberdade também tem dessas ironias: às vezes a gente só descobre que era prisioneiro quando a porta da cela se abre, feito os prisioneiros do Mito da Caverna. Quantas vezes se é refém de escolhas que não foram tuas, de expectativas alheias, de hábitos que não eram teus, de silêncios que engoliste só para não desagradar. E quando se percebe o “ainda que tardia” da frase faz todo sentido. Porque nunca é cedo ou tarde demais para se libertar do que não nos serve mais.

Liberdade, às vezes, pode ser sair sem relógio. É deixar o celular em casa. É rir de si mesmo. É dançar uma música que tu dizias odiar, só porque naquele momento fez sentido. É não ter mais vergonha de mudar de ideia, de caminho, ou de sonho.

Se me perguntarem hoje o que é liberdade, talvez eu dissesse que é poder viver de acordo com o coração — mesmo que ele erre, mesmo que demore; é a capacidade de agir, pensar e escolher segundo a própria vontade, sem imposições externas indevidas, dentro dos limites da ética e da razoabilidade; é poder viver conforme teus valores, sem medo ou opressão; é gozar de direitos civis, como a liberdade de expressão, de ir e vir, de crença e de associação; por fim, é a superação de condicionamentos internos que limitam o indivíduo
mesmo que ele chegue atrasado à festa. Porque, como diz aquele lema, ainda que tardia, a liberdade tem esse dom de lavar a alma.

Salvador-Ba, 16 de abril de 2025

José Joaquim de Oliveira

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