Fazer bem feito

Há uma frase atribuída ao filósofo Goethe que costuma surgir nos momentos em que o capricho se vê em desvantagem frente à pressa:
“Se algo é digno de se feito, então que seja bem feito.”

Simples, direta e – como toda boa máxima – difícil de ignorar. Nela está contida a sabedoria de quem entendeu que a vida não perdoa o improviso desleixado, nem os atalhos mal traçados.

Desde pequenos ouvimos variações disso vindas da boca dos mais velhos: “Capricha, menino!”, “Não faça isso de qualquer jeito”, “Tudo que vale a pena ser feito, vale a pena ser bem feito.” São conselhos que cruzam gerações, às vezes com mais força na bronca do que na prática. Mas, curiosamente, só começamos a entender o peso dessas palavras quando já estamos com muitos quilômetros rodados na sola dos pés.

Fazer bem feito não significa perfeição. Significa cuidado. Atenção. Presença. Significa estar inteiro naquilo que se faz, seja um relatório, um café passado com calma ou um gesto de gentileza num dia comum.

Goethe, com seu olhar filosófico, talvez quisesse nos lembrar que a qualidade de nossas ações reflete diretamente na qualidade do que somos na vida. Porque o que se faz de qualquer jeito, geralmente retorna do mesmo modo.

E no fim das contas, entre tantas coisas que não dependem da nossa vontade, o capricho ainda é uma escolha pessoal. E como toda boa escolha, costuma deixar rastros bonitos por onde passa.

Eu presenciei na infância essa filosifia ser aplicada com muito esmero pelo meu avô Tintino.
Vi o ferreiro Tintino, encurvado entre o fole da fornalha e a velha bigorna, lixa em mãos, concentrado como um cirurgião prestes a dar o primeiro corte. Era apenas uma moldura de porta que ele consertava, mas sua atenção parecia a de quem restaurava uma obra de arte renascentista. Quem passava pela calçada da tenda podia achar exagero. “Pra quê tanto esmero numa peça que ninguém nota?”, perguntaria um transeunte apressado, sempre com uma tarefa incompleta na fila.

Mas Seu Tintino, homem de fala mansa e gestos comedidos, tinha uma filosofia simples: se algo é digno de ser feito, que seja bem feito. Não falava isso com pose de mestre zen nem com ar professoral. Era só o jeito dele de respeitar o que fazia, fosse consertar uma dobradiça, fazer um ferrolho ou passar um café no coador de pano.

Hoje em dia, parece que tudo corre. Comida rápida, mensagens instantâneas, decisões apressadas. Faz-se o que dá pra fazer, no tempo que sobra, do jeito que der. Mas o mundo anda precisando de mais Tintinos, desses que param, olham e dizem: “isso merece ser feito com capricho.”

Cono já frisei, não se trata de perfeccionismo — trata-se de dignidade, de dar ao que se faz a importância que merece. Seja costurar um botão solto, escrever um bilhete, cuidar de uma planta ou escutar alguém com atenção. Quando fazemos algo com dedicação, ainda que simples, deixamos uma marca invisível: a do cuidado.

Seu Tintino terminou a moldura no final da tarde. Passou o zarcão, deu dois passos pra trás e contemplou. Ninguém bateu palmas, não saiu no jornal, mas ele sabia: ali estava um pequeno gesto de respeito ao mundo.

E talvez seja isso o que faz a diferença: a soma dos pequenos atos bem feitos, dia após dia. Porque se algo é digno de ser feito, então que seja bem feito.

Salvador-Ba, 14 de abril de 2025

José Joaquim de Oliveira

Leave a comment