Lá vem ele, São José, marcando com o cajado no calendário rural o dia certo de lançar o milho à terra. Desde priscas eras, o sertanejo sabe: plantar no dia de São José, 19 de março, é prenúncio de uma boa colheita para o São João.
Olhando para o céu, o agricultor observa as nuvens e sente o vento. Se chove nesse dia, é sinal de fartura. Se não chove, é tempo de reforçar a fé e esperar pela água que Deus há de mandar. E assim, entre rezas e enxadas, os grãos dourados mergulham no solo, prontos para seu ciclo de vida.
Os dias passam, a planta cresce, a espiga se forma. E quando junho chega, a colheita vira festa. A fogueira se acende, o cheiro de milho cozido e assado se espalha pelo ar, e as bandeirolas dançam ao vento. Santo Antonio, São João e São Pedro – a trindade dos festejos juninos – recebem com alegria o milho que nasceu da fé e do suor do povo sertanejo.
E assim, ano após ano, segue o compasso da roça e do tempo. São José planta a esperança, São João colhe a alegria. Porque, no sertão, a fé sempre foi a melhor adubação.
No sertão dos meus avós, há verdades que a ciência pode até contestar, mas que o tempo e a tradição confirmam sem sombra de dúvida. Uma delas é essa, a de plantar milho no dia de São José. Não importa se o céu está limpo como um espelho ou se as nuvens ainda não deram sinal de vida – a fé do sertanejo é mais forte que qualquer previsão meteorológica.
Foi sempre assim. Logo ao raiar do dia 19 de março, o sertanejo pega enxada, o saco de sementes e vai ao roçado. O sol ainda desponta tímido no horizonte, e o cheiro da terra úmida da última garoa da madrugada enche os pulmões com promessa de fartura.
Enquanto abre os sulcos na terra nem sempre úmida, lembra-se das palavras dos avós:
— Meu filho, São José nunca falha. Planta no dia dele que a chuva que ainda não veio, vem logo depois.
Eu acredito. Acredito como quem acredita no vento que sopra e na cabeça d’água que corre serpenteando o leito seco do rio. A cada semente jogada ao chão, uma prece silenciosa. A cada punhado de terra cobrindo o grão, uma esperança também é plantada.
Os dias se passam, e os vizinhos que não plantaram olham com um misto de admiração e dúvida. Alguns acham que aquele sertanejo havia se precipitado. “Ainda não choveu direito”, comentam nos encontros na venda de Seu Zizi. Contudo, a semente já estava lançada à terra e a parte que cabia ao homem já estava feita. O resto cabia ao céu.
Lá no sertão, plantar no dia de São José não é só uma questão de tradição e fé – é um pacto de confiança com o Sagrado e o Divino, que lá no sertão os sertanejos, às vezes, chamam de destino.
Salvador-Ba, 19 de março de 2025
José Joaquim de Oliveira
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