No pequenino lugarejo de Pedra Pintada, o silêncio reinante só era entrecortado pelos uivos do vento e os sussurros das histórias antigas contadas à luz de lamparina. Quem se aventurava pelas ruas depois do anoitecer jurava ouvir o galopar de cascos e um brilho faiscante cortando a escuridão. Diziam que era a Mula sem Cabeça, uma alma purgando suas culpas por amores proibidos, vagando sem descanso a atormentar os viventes.
Dona Zezé Rezadeira, sentada na varanda de sua casa, quando anoitecia e a Lua surgia, gostava de contar sobre os tempos em que quase encontrou a tal criatura. “Naquele tempo, dizia ela, a gente fechava as portas cedo, mas meu finado marido, teimoso como era, decidiu espiar pela janela. Pois não é que ele viu uma luz danada passando pelo terreiro? Desde então, ele nunca mais foi o mesmo.” Os vizinhos escutavam essas histórias de olhos arregalados, segurando o fôlego de tanto pavor.
Mas, se a Mula sem Cabeça assustava, o Papa-figo apavorava.
Conta a lenda que era um velho doente que mandava sequestrar crianças para extrair-lhes o fígado e curar sua enfermidade. Muitos pais usavam essa história para evitar que os pequenos vagassem sozinhos pelas ruas. Ainda assim, havia quem jurasse ter visto um homem estranho rondando a escola em busca de meninos distraídos.
Mais ainda.
Havia a Chorona, cujo lamento ecoava pelas madrugadas adentro. Alguns diziam que era uma mãe que vendera os filhos e, em desespero, vagava chamando por eles. Outros acreditavam que era uma alma penada que buscava vingança. O certo era que, sempre que alguém a ouvia chorar, uma desgraça acontecia no lugar.
Os mais jovens riam dessas histórias, chamando-as de bobagens. Mas quem cresceu ouvindo essas lendas sabia que, na dúvida, era melhor não desafiar o desconhecido. E assim, em Pedra Pintada, as portas continuavam sendo trancadas cedo, e ninguém ousava sair à noite sem antes fazer o sinal da cruz.
Contudo, nem tudo era medo, nem todos eram amodrontados. Havia os tais destemidos a desafiar as assombrações.
Numa certa noite, a lua cheia se escondia por trás das nuvens, lançando sombras inquietas sobre o lugarejo. Os mais velhos sempre diziam para evitar sair depois do pôr do sol, pois era quando os espíritos errantes tomavam as estradas. Mas o feirante Uíca, corajoso como era, não acreditava nessas histórias e decidiu voltar da feira tarde da noite.
A estrada de terra era um tanto tenebrosa, ladeada por cruzeiros a lembrar mortes de emboscada ou picadas de cascavéos que se escondiam nos velhos juazeiros retorcidos. O silêncio só era quebrado pelo coaxar dos sapos e pelo uivo do vento. De repente, Uíca ouviu um som estranho: um galope ritmado, mas sem eco de casco no chão. Isso não podia ser coisa deste mundo. Seu coração disparou quando viu, na curva do caminho, uma figura sem cabeça que lembrava um cavalo negro cuspindo fogo pelos buracos que seriam as ventas da besta.
É a Mula sem Cabeça!
Diziam os mais antigos que era o castigo de mulheres que se envolviam com padres, condenadas a vagar como bestas-feras nas noite de sexta-feira de lua cheia. Uíca, tremendo de medo, lembrou-se de que sua avó lhe contara que a única maneira de escapar era rezar baixinho. Uíca fechou os olhos e murmurou o pouco do que sabia do Pai Nosso. Aos poucos, o galope se afastou e ele sentiu um grande alívio. Contudo, sua paz não durou muito. Ao longe, surgiu outra figura tenebrosa que vinha em sua direção, arrastando os pés virados para trás. A coisa com a aparência de um velho vestia trapos, carregava um saco que escorria um líquido escuro, trazia um facão preso entre os dentes e seus olhos iluminavam o chão de um jeito estranho. Uíca sentiu um arrepio ao se lembrar da história do Papa-figo, o homem que sequestrava crianças para extrair seus fígados e utilizá-los como cura para suas doenças.
Uíca já não era mais criança, mas mesmo assim o medo o aterrorizou. O homem sorriu, deixou cair o facão que estava preso aos seus dentes e estendeu sua mão peluda e de unhas alongadas como garras afiadas. “Rapaz, vocé parece assustado, quer a minha ajuda?” Uíca recuou, sentindo o suor frio escorrer pelas costas. Sem pensar duas vezes, virou-se e disparou a correr para casa, sem olhar para trás.
Antes de atravessar a porteira de sua casa, ouviu, ao longe, o lamento de uma mulher. Foi então que ele se lembrou da Chorona, a alma daquela pobre que vendera os filhos e agora vagava em busca deles. Fechou a porta com força, travou a tramela e ficou sentado na sala grande onde havia um crucifixo, escutando os grilos sem conseguir dormir, esperando que o sol nascesse e afastasse os terrores da noite.
Na manhã seguinte, Uíca jurou nunca mais duvidar das histórias dos mais velhos. E, a partir daquele dia, assumiu a missão de convercer as pessoas nunca mais a andar sozinhas depois de escurecer.
Salvador-Ba, 13 de fevereiro de 2025
José Joaquim de Oliveira
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