Havia um homem que não era de muitas palavras. Suas mãos calejadas conheciam mais os nós das redes do que os delicados pergaminhos das Escrituras Sagradas. Seu mundo era o cheiro salgado do mar, o ranger do barco contra as ondas e o cansaço dos dias sem peixe.
Naquela manhã, porém, tudo parecia diferente. A brisa estava mais leve, o sol dançava sobre as águas como se anunciasse algo novo. E então surgiu Aquele Homem. Não um pescador, não um comerciante, não uma autoridade do poderoso Império Romano. Um homem simples, que não buscava poderosos e nem armas, de olhar profundo e palavras que pareciam tocar a alma.
“Lança as redes.”
Simão riu, um riso cansado de quem já tinha tentado e falhado tantas vezes. Mas, por alguma razão que nem ele entendia, obedeceu. E o que aconteceu a seguir nunca poderia ter sido explicado pela lógica dos pescadores. Os peixes vieram em enxurrada, tantos que a rede quase se rompia, tantos que o barco quase afundava.
Foi então que Simão caiu de joelhos. Não era apenas um milagre de peixes; era um encontro com algo maior, com o sagrado, com a presença que desnuda a alma. E ali, diante do Inexplicável, ele viu a verdade sobre si mesmo.
“Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador.”
O Mistério Divino revelado na simplicidade de uma pesca. A grandeza de Deus contrastando com a pequenez de um homem rude. O medo de ser indigno, o receio de não estar à altura de qualquer missão. Mas a resposta veio serena, sem reprovação, sem condenação:
“Não temas. De agora em diante, serás pescador de homens.”
E assim, o velho pescador se tornou discípulo. Porque o verdadeiro chamado não exige perfeição, mas sim um coração disposto a se deixar transformar.
Salvador-Ba, 08 de fevereiro de 2025
José Joaquim de Oliveira
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