Sem pressa

No quintal da minha casa, dois companheiros silenciosos são testemunhos de minha história recente: o cajuzeiro e a aceroleira. Plantados em tempos diferentes, mas unidos pelo mesmo solo generoso, eles testemunham minhas manhãs preguiçosas e minhas tardes reflexivas.

O cajuzeiro veio primeiro, presente de um amigo querido que conhecia minha paixão por sua sombra acolhedora e pelos cajus dourados que amadurecem sob o sol forte. Forte e resistente, ele enfrentou ventos, maus tratos e tempestades sem jamais se dobrar. Seu tronco rugoso parece contar os meus dias e seus galhos frondosos sempre têm espaço para um novo ninho de sabiás.

A aceroleira, ao contrário, chegou bem depois, miúda, tímida, como quem pede licença para crescer ao lado do majestoso cajueiro. Em breve não demorará muito para se tornar uma explosão de verdes folhas e frutos vermelhos. Diferente do cajuzeiro, que amadurece devagar, a aceroleira se apressa: num dia, as flores brotam; no outro, já há frutos quase prontos para serem colhidos. Com ela, aprenderei a respeitar o tempo e o ritmo das coisas — algumas amadurecem aos poucos, outras florescem de repente.

São árvores que me dão mais do que frutos: dão-me oportunidades de pensar. Quantas tardes já passei sob o cajuzeiro, ouvindo o canto dos bem-te-vis e sentindo o cheiro doce dos cajus caídos ao chão? Quantas vezes minha infância voltou ao me lembrar de um gole de suco de acerola fresquinha, colhida direto do pé no sítio de meu avô?

Hoje, olho para um deles e percebo que, assim como eu, já não é tão jovem. O cajuzeiro tem marcas no tronco, a aceroleira está desabrochando em múltiplos galhos. Mas ambos continuam firmes na promessa de oferecer sombra, alimento e histórias. São parte de mim, tanto quanto as memórias que carrego.

E quando a vida aperta, sei exatamente onde me refugiar: sob o cajuzeiro que me ensina paciência e a aceroleira que me lembra, às vezes, que a vida acontece num piscar de olhos.

Entre o cajueiro e a aceroleira, me descubro um novo ser para escrever breves crônicas. Não sei se é a sombra generosa do primeiro ou a promessa de um vermelho vibrante da segunda que acende essa vontade de escrever. Talvez seja a lembrança dos tempos em que subir em árvores era meu maior desafio, quando a vida tinha o gosto agridoce de um caju maduro ou a acidez esperta de uma acerola recém-colhida.

Sento-me no batente de varanda, companheiro silencioso dessas reflexões. O vento dança entre os galhos, levando embora as palavras e ideias que não prestam e deixando apenas aquelas que valem a pena. Às vezes, acho que o cajueiro me aconselha com sua paciência de décadas, enquanto a aceroleira, impetuosa, me encoraja a ser breve e intenso.

Escrever crônicas é um pouco como colher frutas. Alguns textos caem no chão sozinhos, prontos para serem apanhados. Outros exigem um leve sacudir dos galhos da memória. Há aqueles que ainda não amadureceram e precisam de tempo, e há as que passam do ponto antes que eu perceba.

Aqui, entre esses dois seres da natureza, redescubro o prazer de observar a vida sem pressa, de transformar instantes em palavras. E, quem sabe, de oferecer aos que me leem uma fruta bem colhida – doce ou ácida, mas sempre sincera.

Salvador-Ba, 06 de fevereiro de 2025

José Joaquim de Oliveira

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