Há roupas que um dia nos serviram bem, mas que agora nos apertam, sobram nos ombros, na barra ou simplesmente já não combinam com quem nos tornamos. Assim também são certas coisas, memórias, hábitos, lugares e até pessoas. Tudo tem seu tempo de ajuste, mas há momentos em que o melhor a fazer é dobrar com cuidado, agradecer pelo uso e deixar para trás.
Nem sempre é fácil. O apego nos sussurra que talvez um dia aquela peça volte a nos servir, que aquele velho costume ainda pode ter espaço, que aquela companhia outrora querida ainda tem algo a oferecer. Mas a verdade é que crescer exige espaço. Segurar o que já não nos serve só atrapalha a chegada do novo que, inevitalvelmente, vem.
É preciso coragem para desapegar, mas há uma leveza que vem junto com isso. Quando deixamos para trás o que já não nos veste bem, encontramos espaço para novas histórias, novas roupas, novas versões de nós mesmos. Afinal, viver é um constante renovar de vestes, sonhos e caminhos.
O desapego é um exercício rigoroso de coragem. Não porque seja difícil se livrar de coisas, mas porque nelas depositamos pedaços da nossa história. Guardamos cartas de um amor que não vingou, roupas que já não servem, anotações de projetos que nunca saíram do papel. Mantemos, sem perceber, um museu pessoal de versões passadas de nós mesmos.
O primeiro movimento é o mais difícil, mas logo vem a leveza, como se cada coisa que se deixa para trás abrisse espaço para algo novo.
Desapegar não é esquecer. É reconhecer que certas memórias podem seguir conosco sem a necessidade de um objeto para ancorá-las. É entender que crescer implica deixar seguir, que algumas coisas nos serviram em um certo tempo, mas já não cabem na vida que escolhemos agora.
Salvador-Ba, 02 de fevereiro de 2025
José Joaquim de Oliveira
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