Quem encontro?

Hoje estou com vontade de refletir sobre a minha existência. A passagem dos anos nos ensina a olhar para trás de uma maneira diferente. Um dia depois do outro, os anos que parecem passar devagar e as décadas que, quando revisitadas, parecem ter corrido depressa, vão se acumulando em algum lugar da memória.

É então que, ao abrir esses arquivos pessoais, surge uma pergunta inesperada: quem encontro?

Para minha surpresa, encontro pouca gente.

Não porque tenha convivido com poucas pessoas. Pelo contrário. A vida nos coloca diante de rostos incontáveis. Alguns permanecem durante anos, participam da rotina, conhecem nossos hábitos, acompanham nossas mudanças. Outros passam rapidamente, quase sem tempo para que possamos compreender o significado daquele encontro.

E, no entanto, são justamente alguns desses que permanecem.

Há pessoas que fizeram parte da minha vida durante pouco tempo — quatro meses, talvez menos — e que, apesar da brevidade da convivência, deixaram marcas que os anos não conseguiram apagar. É curioso perceber isso quando a memória começa a separar o que foi importante daquilo que apenas ocupou espaço.

A memória não é uma simples reprodução do passado. Ela parece fazer escolhas. Guarda certas vozes, determinados gestos, uma conversa que poderia ter sido esquecida, um olhar, uma presença, uma ausência. E deixa desaparecer tantas outras coisas que, no momento em que aconteceram, pareciam importantes.

Quando pensamos na própria existência, percebemos que não somos feitos apenas daquilo que conseguimos contar. Somos também constituídos por encontros que não tiveram continuidade, por pessoas que permaneceram pouco tempo e, ainda assim, modificaram alguma coisa em nós.

O tempo, nesse sentido, não parece obedecer ao calendário. Quatro meses podem ocupar na lembrança um espaço maior do que vinte anos. Uma tarde pode permanecer mais viva do que uma década inteira. Há momentos que passam pela vida sem deixar vestígios e outros que, embora breves, continuam nos acompanhando.

Essa é uma das estranhezas de existir: não sabemos, enquanto vivemos, quais acontecimentos permanecerão conosco. Muitas vezes damos importância ao que está diante dos nossos olhos porque imaginamos que o futuro confirmará essa importância. Só mais tarde percebemos que a memória construiu outra ordem.

Por isso, olhar para trás não significa apenas recordar. É também descobrir.

Descobrir quem fomos, quem esteve conosco e, sobretudo, quem ainda está de alguma maneira. Há pessoas que já não fazem parte dos nossos dias, mas continuam presentes naquilo que aprendemos, nas escolhas que fizemos, na maneira como passamos a olhar o mundo.

A existência é assim, feita dessa mistura difícil de medir: anos inteiros que se tornam lembranças vagas e breves encontros que permanecem nítidos.

E quando fechamos os arquivos da memória, depois de percorrer tantas páginas, descobrimos que a  pergunta verdadeira não seja quantas pessoas passaram por nossa vida, mas sim, quantas delas, mesmo tendo partido, ainda vivem em alguma parte de nós?

Salvador-BA, 23 de julho de 2024

José Joaquim de Oliveira

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José Joaquim de Oliveira

Engenheiro elétrico aposentado, com carreira em telecomunicações no Brasil e exterior. Escreve sobre memória, fé e vida cotidiana. Saiba mais →


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