Essa é uma verdade profundamente presente em toda a Sagrada Escritura: Deus não abandona o homem que se afasta. Mesmo quando o pecado cria distância, a misericórdia permanece à espera. Mesmo quando o ser humano escolhe outros caminhos, Deus continua chamando pelo nome.
A parábola do filho pródigo, no Evangelho de São Lucas, é uma das expressões mais belas desse mistério. O filho parte, leva consigo a herança, abandona a casa do pai e experimenta a dureza de uma liberdade vivida longe daquele que o ama. Somente depois de perder quase tudo ele percebe que precisa voltar.
E é justamente aí que a história se torna profundamente humana.
Porque voltar exige humildade. É preciso reconhecer que o caminho escolhido não nos conduziu onde imaginávamos. É preciso abandonar o orgulho, admitir a própria fragilidade e ter coragem de dar os primeiros passos de volta.
O filho prepara seu pedido de perdão. Mas, antes mesmo que consiga pronunciá-lo, o pai o vê de longe e corre ao seu encontro.
Essa imagem contém uma das maiores revelações do Evangelho: Deus não recebe o pecador arrependido com uma cobrança pelo passado, mas com a misericórdia de um Pai.
O pai não pergunta quanto tempo o filho demorou. Não enumera seus erros. Não exige explicações antes de acolhê-lo. Ele o abraça.
Isso não significa que o passado deixe de existir. Significa que o passado não precisa determinar o futuro.
Também nós podemos ter nos afastado. Podemos ter perdido tempo, tomado decisões equivocadas, negligenciado a oração, ferido pessoas, deixado de fazer o bem que deveríamos ter feito. Há erros que permanecem na memória e consequências que não desaparecem simplesmente porque nos arrependemos.
Mas o arrependimento cristão não é permanecer prisioneiro da culpa. É voltar-se para Deus.
Por isso, nunca é tarde para mudar de vida.
Jesus não disse à mulher adúltera: “Você está definida pelo que fez.” Disse-lhe: “Vai e, de agora em diante, não peques mais.” Há, nessas palavras, duas realidades inseparáveis: a misericórdia que perdoa e o chamado à mudança.
Deus perdoa, mas também chama.
Chama-nos a abandonar aquilo que nos afasta d’Ele. Chama-nos à conversão do coração. Chama-nos a uma vida mais coerente com a fé que professamos. Chama-nos a transformar o arrependimento em decisão e a decisão em caminhada.
São Paulo escreve: “Eis que tudo se fez novo.” A novidade cristã não consiste em fingir que o passado nunca aconteceu, mas em permitir que a graça de Deus transforme aquilo que fomos naquilo que ainda podemos ser.
Talvez tenhamos chegado tarde a algumas coisas. Talvez tenhamos desperdiçado anos, oportunidades e palavras que não podem mais ser recuperadas. Mas, diante de Deus, enquanto houver vida, ainda existe um caminho a percorrer.
O ladrão crucificado ao lado de Jesus descobriu isso no último instante. Quando já não podia refazer sua história, ainda pôde entregar a Cristo aquilo que lhe restava: a confiança.
E Jesus lhe respondeu com uma promessa que atravessou os séculos: “Ainda hoje estarás comigo no Paraíso.”
Não há, portanto, momento insignificante para uma volta sincera a Deus.
Pode ser hoje.
Pode ser agora.
O passado não pode ser reescrito, mas o futuro ainda pode ser colocado nas mãos de Deus.
Que tenhamos a humildade de reconhecer quando nos afastamos, a coragem de retornar e a fidelidade necessária para permanecer no caminho.
Porque a misericórdia de Deus não nos convida simplesmente a voltar para onde estávamos.
Ela nos chama a caminhar para onde ainda não chegamos.
Nunca é tarde para voltar. Enquanto houver vida, a porta da misericórdia permanece aberta. E, quando decidimos atravessá-la, descobrimos que Deus já estava à nossa espera.
Salvador-BA, 25 de setembro 2026.
José Joaquim de Oliveira
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